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Coluna do Dr. Rogerio Moreira Lima

6G e Comunicação Semântica: Dos Bits ao Significado

6G e Comunicação Semântica: Dos Bits ao Significado

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OUTUBRO DE 1948_78 ANOS DA TEORIA MATEMÁTICA DA COMUNICAÇÃO DE SHANNON

OUTUBRO DE 1948_78 ANOS DA TEORIA MATEMÁTICA DA COMUNICAÇÃO DE SHANNON

OUTUBRO DE 1948: 78 ANOS DA TEORIA MATEMÁTICA DA COMUNICAÇÃO DE SHANNON

Como um artigo publicado há 78 anos estabeleceu os limites fundamentais das telecomunicações modernas

Rogerio Moreira Lima Silva
Membro Titular da Cadeira nº 54 da Academia Maranhense de Ciências

Em outubro de 1948, era publicada a segunda parte de A Mathematical Theory of Communication, um dos trabalhos científicos mais influentes do século XX para a Engenharia Elétrica e as Telecomunicações. Seu autor, Claude Elwood Shannon, matemático e engenheiro eletricista norte-americano, estabeleceu uma estrutura matemática para compreender a informação, o ruído e os limites fundamentais da transmissão. A primeira parte do artigo havia sido publicada em julho daquele ano, no Bell System Technical Journal, páginas 379 a 423, e a segunda, em outubro, páginas 623 a 656. Ao integrar conhecimentos matemáticos a problemas concretos de comunicação, Shannon lançou fundamentos que permanecem essenciais para compreender e desenvolver as tecnologias que sustentam o mundo contemporâneo.

A importância dessa contribuição começa pela formulação do próprio problema da comunicação. Shannon distinguiu o significado de uma mensagem da possibilidade de transmiti-la e recuperá-la com fidelidade. Seu objetivo não era avaliar o conteúdo semântico, mas investigar como uma mensagem escolhida em determinado ponto poderia ser reproduzida, de maneira exata ou aproximada, em outro. Isso não significava negar a importância do significado para as pessoas, mas delimitar o problema de Engenharia: compreender as condições necessárias para transmitir informação com fidelidade, mesmo diante das limitações do canal. Essa abordagem transformou a comunicação em um problema matemático rigoroso, passível de análise, quantificação e otimização.

O trabalho de Shannon não surgiu isoladamente. Pesquisadores como Harry Nyquist e Ralph Hartley já haviam contribuído significativamente para a compreensão da transmissão de informação. Shannon ampliou esses conhecimentos e estabeleceu uma teoria geral capaz de relacionar fontes de informação, canais, ruído, codificação e capacidade de transmissão. Sua contribuição foi construir uma estrutura matemática que permitisse estudar esses elementos de forma integrada, independentemente do meio físico utilizado para transportar a informação.

Uma das bases dessa teoria foi a possibilidade de quantificar a informação. Quando um evento pode ocorrer entre diferentes possibilidades, a informação associada ao resultado relaciona-se à incerteza existente antes de sua ocorrência. Em termos gerais, resultados menos prováveis podem trazer mais informação do que aqueles já esperados. Shannon demonstrou que uma medida consistente dessa quantidade deveria estar relacionada ao logaritmo das probabilidades. Com o logaritmo na base 2, a unidade de informação é o bit, que se tornou um dos conceitos fundamentais dos sistemas digitais.

Essa formulação conduz ao conceito de entropia, utilizado para representar matematicamente a incerteza associada a uma fonte de informação. Em termos matemáticos, a entropia é o negativo do somatório, para todas as possibilidades, do produto da probabilidade de cada evento pelo logaritmo dessa probabilidade na base 2. Quando um resultado é conhecido com certeza, a entropia é nula; quando existem diferentes resultados possíveis, seu valor depende da distribuição das probabilidades. A entropia não mede o significado ou a importância de uma mensagem, mas a incerteza definida por um modelo probabilístico. Essa distinção permitiu transformar um conceito abstrato em uma grandeza matemática útil para analisar sistemas de comunicação.

A teoria também tornou possível separar questões essenciais: quanta informação uma fonte produz, quanto um canal consegue transportar e em que condições o receptor pode recuperar a mensagem. Como a transmissão ocorre por meios físicos sujeitos a limitações e perturbações, o ruído precisava fazer parte dessa análise. Ele deixou de ser considerado apenas uma dificuldade operacional e passou a integrar o próprio modelo matemático da comunicação.

Nesse contexto, destaca-se o conceito de capacidade do canal: a maior taxa de informação que pode ser transmitida de forma confiável sob determinadas condições. Para um canal limitado em largura de banda, sujeito a ruído térmico branco e com potência média de transmissão limitada, Shannon estabeleceu uma relação entre a capacidade, a largura de banda e a relação entre a potência do sinal e a potência do ruído. Esse resultado, conhecido como limite de Shannon, tornou-se uma referência fundamental para o dimensionamento de sistemas de comunicação.

A interpretação dessa relação é particularmente importante para a Engenharia Elétrica. Ampliar a largura de banda disponível pode elevar a capacidade do canal. Melhorar a relação sinal-ruído também pode aumentá-la, seja pelo aumento da potência média do sinal, seja pela redução da potência média do ruído, quando essas alternativas são tecnicamente viáveis. Entretanto, a dependência é logarítmica: à medida que a relação sinal-ruído cresce, os ganhos adicionais de capacidade tornam-se progressivamente menores. No modelo idealizado, não há um ponto finito em que a capacidade deixe de crescer completamente; o que ocorre é uma redução do ganho marginal. Essa propriedade evidencia a importância de decisões de Engenharia que considerem simultaneamente largura de banda, potência, interferência, eficiência espectral, custos e limitações físicas.

A contribuição de Shannon foi além de estabelecer um limite teórico. Seu teorema fundamental para canais discretos com ruído demonstrou que, quando a taxa de transmissão está abaixo da capacidade do canal, existem estratégias de codificação capazes de tornar a probabilidade de erro tão pequena quanto se deseje, dentro das hipóteses do teorema. Acima da capacidade, não é possível obter confiabilidade arbitrariamente elevada por meio da codificação. Esse resultado revelou que o ruído não impede necessariamente a comunicação confiável: a maneira como a informação é codificada pode permitir que o receptor recupere a mensagem mesmo diante de perturbações.

Essa descoberta transformou a maneira de projetar sistemas de comunicação. Em vez de depender apenas do aumento da potência transmitida, tornou-se possível explorar estruturas matemáticas, redundância controlada e técnicas de codificação para enfrentar os efeitos do ruído. A Engenharia dos sistemas digitais passou, assim, a integrar de forma sistemática conhecimentos de probabilidade, estatística, álgebra, teoria dos códigos e processamento de sinais.

Essa evolução também possibilitou o desenvolvimento de técnicas de modulação com eficiência espectral cada vez maior, permitindo transmitir taxas de dados mais elevadas utilizando de forma mais eficiente a largura de banda disponível. Entre essas técnicas estão as modulações de ordem elevada e as constelações de modulação não uniforme, nas quais os símbolos são distribuídos com espaçamentos não iguais, segundo estratégias que podem melhorar o desempenho diante das condições do canal. Essas soluções não foram desenvolvidas diretamente por Shannon, mas representam aplicações de princípios da Teoria da Informação e da busca por um desempenho cada vez mais próximo dos limites fundamentais que sua obra ajudou a estabelecer.

A trajetória de Shannon evidencia a relação entre Matemática e Engenharia Elétrica que sustenta sua contribuição. Matemático e engenheiro eletricista, graduou-se simultaneamente nessas duas áreas pela Universidade de Michigan, em 1936. No Massachusetts Institute of Technology, desenvolveu sua dissertação de mestrado, An Analysis of Relay and Switching Circuits, demonstrando como a álgebra booleana poderia ser aplicada à análise e ao projeto de circuitos de relés e sistemas de comutação. Esse trabalho já revelava sua capacidade de utilizar estruturas matemáticas para representar e resolver problemas concretos de Engenharia, característica que se tornaria decisiva em sua obra sobre comunicação.

A Matemática fornece ferramentas para representar fenômenos, estabelecer relações e quantificar limites; a Física contribui para compreender a propagação dos sinais, o ruído e as propriedades dos meios de transmissão; e a Engenharia integra esses conhecimentos para desenvolver sistemas capazes de funcionar em condições reais. Enquanto ciência aplicada, a Engenharia não se limita a utilizar resultados científicos já estabelecidos. Também formula problemas, constrói modelos, avalia soluções e transforma conhecimento em tecnologias que atendem às necessidades da sociedade. A obra de Shannon é uma demonstração expressiva dessa integração entre fundamentos científicos e aplicação tecnológica.

Seus princípios estão presentes em enlaces de rádio e micro-ondas, sistemas de comunicação por satélite, redes de fibra óptica, conexões Wi-Fi e redes móveis. Embora os meios físicos, as frequências e as arquiteturas sejam diferentes, permanece a necessidade de compreender quanto de informação pode ser transmitido, sob quais condições e com que nível de confiabilidade.

Nas redes móveis de quinta geração, o 5G, por exemplo, o aumento das taxas de transmissão depende da combinação entre largura de banda, relação sinal-ruído, eficiência espectral, modulação, codificação, múltiplas antenas e processamento digital de sinais. O desempenho não resulta de uma única variável, mas da interação entre esses recursos e as condições de propagação e interferência. A teoria de Shannon oferece uma referência para avaliar essas escolhas, embora os sistemas reais também estejam sujeitos a restrições de mobilidade, consumo energético, custo e complexidade de implementação.

O mesmo raciocínio permanece relevante nas pesquisas para o 6G. A busca por maiores taxas de transmissão, menor latência, eficiência energética e conectividade para um número crescente de dispositivos exige compreender os limites físicos e matemáticos dos canais. Novas arquiteturas, faixas de frequência, técnicas de processamento e aplicações de Inteligência Artificial podem ampliar o desempenho dos sistemas, mas não eliminam as condições fundamentais da comunicação. A teoria de Shannon não fornece, isoladamente, o projeto de uma rede moderna; oferece, porém, fundamentos para avaliar o que é teoricamente possível e orientar a busca por soluções mais eficientes.

É necessário distinguir capacidade teórica de desempenho prático. O limite de Shannon decorre de hipóteses específicas sobre o canal e suas condições de operação. Os sistemas reais precisam lidar com canais variáveis, interferências, limitações de hardware e consumo de energia. Aproximar-se dos limites teóricos exige técnicas avançadas e compromissos de projeto. A contribuição de Shannon foi demonstrar matematicamente as condições para uma comunicação confiável e os limites que não podem ser ultrapassados dentro do modelo considerado, oferecendo aos engenheiros uma referência para avaliar o desempenho alcançável.

A dimensão histórica dessa obra torna sua permanência ainda mais notável. Em 1948, as telecomunicações estavam muito distantes do ambiente digital contemporâneo. Não existiam smartphones, internet comercial, redes 5G ou sistemas de Inteligência Artificial generativa. Ainda assim, Shannon formulou princípios gerais que atravessaram décadas de transformação tecnológica. Um bit pode ser transportado por um cabo metálico, por uma fibra óptica, por uma onda de rádio ou por um sistema de satélite. O meio físico muda, os equipamentos evoluem e as aplicações se multiplicam, mas os fundamentos matemáticos continuam oferecendo uma linguagem comum para compreender a informação.

Essa permanência evidencia uma das maiores forças da Ciência: uma formulação matemática construída em determinado momento histórico pode continuar válida quando a tecnologia que a utiliza pertence a uma realidade completamente diferente. O avanço tecnológico não torna obsoletos os fundamentos científicos que o sustentam. Ao contrário, amplia sua importância, pois cada nova geração de sistemas precisa enfrentar desafios de desempenho, confiabilidade, eficiência e complexidade.

Ao assinalarmos, em outubro de 2026, os 78 anos da publicação da segunda parte de A Mathematical Theory of Communication, reconhecer Shannon é reconhecer uma contribuição que ultrapassa os limites das Telecomunicações. Sua obra demonstra como a Matemática pode quantificar a informação, como a análise física permite compreender as limitações dos canais e como a Engenharia transforma esses conhecimentos em sistemas concretos. Ciência e Engenharia não são dimensões concorrentes: são forças complementares na construção do conhecimento e no desenvolvimento tecnológico.

A grandeza de Claude Elwood Shannon está também na combinação singular entre Matemática e Engenharia Elétrica. Como matemático e engenheiro eletricista, integrou o rigor da formulação matemática à compreensão e à solução de problemas concretos de comunicação, estabelecendo fundamentos que atravessaram gerações tecnológicas. Sua trajetória demonstra como a Engenharia, enquanto ciência aplicada, pode transformar conhecimento científico em soluções capazes de produzir profundas transformações tecnológicas.

Passados 78 anos, suas ideias continuam presentes em cada mensagem transmitida, em cada conexão estabelecida e em cada sistema projetado para transportar informação com eficiência e confiabilidade. Em um mundo cada vez mais conectado e inteligente, no qual a Inteligência Artificial amplia a demanda por processamento, transmissão e compartilhamento de volumes crescentes de dados, os fundamentos estabelecidos por Shannon permanecem essenciais para orientar a evolução das comunicações digitais. Shannon pertence ao passado pela época em que formulou sua teoria, mas suas ideias ajudam a construir o futuro das comunicações digitais. Essa é a extraordinária permanência de sua obra: demonstrar que os fundamentos científicos de ontem continuam iluminando as inovações tecnológicas de amanhã, em uma sociedade cada vez mais conectada, inteligente e dependente da comunicação.

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