Universidades públicas brasileiras: quanto investimos e quais resultados entregamos?

As universidades públicas brasileiras estão entre as instituições mais relevantes do país na formação de profissionais, produção científica, pesquisa, inovação e extensão. Mas qual é a dimensão dos recursos destinados a esse sistema e quais resultados são produzidos a partir desses investimentos?

Segundo a Education at a Glance 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2022 o Brasil registrou um gasto de US$ 3.765 por estudante no ensino superior, enquanto a média dos países da OCDE foi de US$ 15.102. Estamos falando de um gasto brasileiro equivalente a aproximadamente 25% da média da OCDE. (Fonte: OCDE, Education at a Glance 2025, Tabela C1.1).

Existe ainda um detalhe importante: a própria OCDE esclarece que o gasto no nível terciário inclui pesquisa e desenvolvimento, o P&D. Portanto, esse indicador não representa simplesmente o custo de manter estudantes em salas de aula. Ele também contempla recursos relacionados à pesquisa realizada nas instituições de ensino superior. (Fonte: OCDE, Education at a Glance 2025, Tabela C1.1).

E aqui existe uma questão fundamental: universidade não é apenas ensino.

A Constituição Federal de 1988, em seu art. 207, estabelece que as universidades obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. (Fonte: Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, art. 207).

O professor universitário, portanto, não atua apenas em sala de aula. Seu trabalho envolve ensino, orientação, iniciação científica, pesquisa, publicação científica, desenvolvimento tecnológico, inovação, extensão e atividades de gestão acadêmica.

Quando o Estado investe em uma universidade pública, não está financiando apenas aulas. Está mantendo uma infraestrutura de conhecimento, formada por professores, pesquisadores, laboratórios, programas de pós-graduação, grupos de pesquisa e estruturas de inovação.

No caso da University of Miami, o documento financeiro da própria instituição apresenta demonstrações consolidadas que abrangem suas atividades acadêmicas e de pesquisa, além do hospital e das clínicas que integram seu sistema de saúde. No exercício encerrado em 31 de maio de 2025, a instituição registrou US$ 6,230 bilhões em receitas operacionais e US$ 5,859 bilhões em despesas operacionais. (Fonte: University of Miami, Consolidated Financial Statements, exercício encerrado em 31 de maio de 2025).

No Brasil, a dimensão financeira das universidades federais também precisa ser compreendida dentro da estrutura orçamentária da União. As 69 universidades federais brasileiras contaram, em 2025, com orçamento de aproximadamente R$ 61,5 bilhões. Considerando, apenas para fins de referência internacional, a cotação PTAX de venda de R$ 5,1604 por dólar em 26 de agosto de 2026, esse valor corresponde a aproximadamente US$ 11,9 bilhões. Os hospitais universitários possuem unidades orçamentárias próprias na estrutura federal, assim como a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), responsável pela gestão de hospitais universitários federais. Na mesma LOA 2025, a EBSERH possui dotação orçamentária de aproximadamente R$ 9,14 bilhões, equivalentes a cerca de US$ 1,77 bilhão pela mesma referência cambial. (Fontes: BRASIL. Ministério do Planejamento e Orçamento; BRASIL. Lei nº 15.121/2025, LOA 2025, Volume V; Banco Central do Brasil, PTAX de 26/08/2026).

É importante ressaltar que não estamos falando, portanto, de uma única instituição, mas de 69 universidades federais distribuídas pelo território nacional, com diferentes estruturas acadêmicas, científicas, tecnológicas e de extensão. Considerando exclusivamente como referência a soma do orçamento aproximado de R$ 61,5 bilhões destinado às universidades federais com a dotação de aproximadamente R$ 9,14 bilhões da EBSERH, chegamos a cerca de R$ 70,6 bilhões na LOA 2025, equivalentes a aproximadamente US$ 13,7 bilhões pela mesma referência cambial. Essa soma não representa uma despesa consolidada do sistema federal de ensino superior, nem significa que os recursos da EBSERH sejam orçamento das universidades. Trata-se apenas da soma de valores orçamentários atribuídos a unidades e estruturas distintas, apresentada para dimensionar a ordem de grandeza dos recursos envolvidos. (Fontes: BRASIL. Ministério do Planejamento e Orçamento; BRASIL. Lei nº 15.121/2025, LOA 2025, Volume V; Banco Central do Brasil, PTAX de 26/08/2026).

Os resultados produzidos pelas universidades públicas brasileiras oferecem evidências concretas de retorno social, científico e tecnológico do investimento público.

O VII Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029, da CAPES/MEC, apresenta um dado particularmente expressivo: um levantamento do INPI referente a 2023 revelou que, entre os 20 primeiros depositantes nacionais de pedidos de patentes, 15 eram universidades públicas, sendo 11 federais. (Fonte: CAPES/MEC, VII Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029, com dados do INPI).

O dado demonstra que as universidades públicas não estão apenas formando profissionais ou produzindo artigos científicos. Elas também participam diretamente da produção de conhecimento passível de proteção intelectual e aplicação tecnológica.

Precisamos, evidentemente, fazer com que uma parcela cada vez maior da pesquisa desenvolvida nas universidades chegue às empresas e ao mercado. É necessário ampliar a transferência de tecnologia, estimular empresas de base tecnológica, fortalecer os Núcleos de Inovação Tecnológica e aproximar os programas de pós-graduação do setor produtivo.

As universidades públicas produzem ciência, tecnologia, inovação e conhecimento estratégico para o país. Os indicadores nacionais e internacionais também mostram resultados relevantes. No Ranking Universitário Folha (RUF) 2024, as cinco instituições mais bem avaliadas eram públicas. Na avaliação oficial do Ministério da Educação pelo IGC, entre as 111 instituições públicas federais avaliadas, 94 obtiveram IGC 4 ou 5, e nenhuma ficou nas faixas 1 ou 2. No cenário internacional, o Times Higher Education (THE) 2025 também posicionou universidades públicas brasileiras entre as melhores do país em áreas como Engenharia, Direito e Medicina e Saúde, com destaque para a USP, que alcançou a 58ª posição mundial em Direito e a 86ª posição em Medicina e Saúde. Em Engenharia, entretanto, a melhor instituição brasileira ficou na faixa entre 251ª e 300ª posição, indicando uma área em que precisamos avançar. (Fontes: Ranking Universitário Folha, RUF 2024; Ministério da Educação/INEP, IGC; Times Higher Education, 2025).

A pós-graduação stricto sensu, tanto no mestrado quanto no doutorado, possui papel fundamental nesse processo. É necessário estimular a produção de patentes, a transferência de tecnologia e a colaboração entre universidades e empresas. (Fonte: CAPES/MEC, VII Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029).

Também existe um retorno econômico associado à formação superior. Segundo a OCDE, brasileiros de 25 a 64 anos com formação superior recebem, em média, 148% mais do que aqueles que possuem apenas o ensino médio. Na média da OCDE, essa diferença é de 54%. (Fonte: OCDE, Education at a Glance 2025, Tabela A4.1).

É claro que existem problemas. A própria OCDE aponta que 25% dos ingressantes em cursos de bacharelado no Brasil abandonam o curso após o primeiro ano, contra 13% na média da OCDE. Três anos após o período teórico de conclusão, apenas 49% dos novos ingressantes brasileiros haviam concluído seus estudos, contra 70% na média da organização. (Fonte: OCDE, Education at a Glance 2025, Tabela B5.1).

Esses resultados precisam ser enfrentados. Precisamos melhorar a permanência dos estudantes, reduzir a evasão, aumentar a conclusão, aperfeiçoar a gestão e cobrar eficiência na utilização dos recursos públicos.

Cobrar eficiência não significa concluir que o investimento é excessivo.

Ao mesmo tempo, nossas universidades públicas apresentam resultados concretos em ensino, pesquisa, formação de pesquisadores, produção científica, desenvolvimento tecnológico e inovação. É preciso reconhecer, portanto, que existe uma diferença entre investir muito e investir de forma estratégica.

O Brasil precisa cobrar eficiência das universidades públicas, aperfeiçoar a gestão, reduzir a evasão, melhorar a conclusão dos cursos e aproximar a universidade das empresas. Mas isso não significa tratar o ensino superior como uma despesa isolada.

Universidade é infraestrutura de conhecimento.

É onde se formam engenheiros, médicos, pesquisadores, cientistas, professores e profissionais que atuarão nos setores estratégicos da economia. É onde se desenvolvem pesquisas em energia, telecomunicações, inteligência artificial, biotecnologia, novos materiais, saúde, agricultura, engenharia e tantas outras áreas.

É onde o conhecimento produzido pode transformar-se em patente, tecnologia, empresa, produto e inovação.

Não existe tecnologia avançada sem conhecimento. Não existe inovação de alta complexidade sem pesquisa. Não existe pesquisa de excelência sem pesquisadores.

Quanto custa para o Brasil não produzir sua própria ciência, não formar seus próprios pesquisadores e depender permanentemente de tecnologia desenvolvida no exterior?

Os dados não indicam que o Brasil deva abandonar ou enfraquecer suas universidades públicas. Indicam que precisamos fazer uma discussão mais madura: cobrar eficiência, melhorar resultados, ampliar a conexão com o setor produtivo e, ao mesmo tempo, reconhecer que ciência, tecnologia e inovação exigem investimento.

O desafio é transformar cada vez mais conhecimento em desenvolvimento, aproximando universidades, empresas, governo e sociedade.

Os números apresentados neste artigo sugerem que ainda temos muito a avançar.

Essa é uma discussão sobre ciência, tecnologia, inovação e sobre o futuro do Brasil.

As universidades públicas brasileiras não pertencem apenas à comunidade acadêmica. Elas são patrimônio científico e tecnológico do povo brasileiro.

Valorizar a universidade pública não significa ignorar seus problemas. Significa reconhecer seus resultados, corrigir suas deficiências e criar condições para que ela possa contribuir ainda mais para o desenvolvimento nacional.

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